Texto: Brig. Paulo Costa, na Revista Aeronáutica Nº 176 de 1990

Numa missão de rotina após o clássico bombardeio picado com bombas de emprego geral de 500 libras, percorremos o Vale do Pó em busca de objetivos de oportunidade para atacar com nossas metralhadoras. Nós, conjugado avião/piloto, éramos vistos e ouvidos de muito longe, o que permitia aos ítalo alemães procurar abrigos ou esconderijos que os livrassem de nossas vistas e, consequentemente, de nossos ataques. Desse modo, era raro avistar veículos, particularmente em movimento, pelo que já explicamos. Para surpresa minha avistei um pequeno caminhão que em alta velocidade procurava, creio eu, algum abrigo para se ocultar. Somente eu, dos quatro membros da esquadrilha, o avistara. Comuniquei ao líder da esquadrilha (era o Meira - os dois outros não recordo os nomes), que nada vira, mas respondeu o clássico “Senta a Pua, Paulo Costa!".

Ao manobrar para atacá-lo, perdi o alvo momentaneamente de vista e comuniquei novamente o ocorrido. O Meira, que circulava de vista com os outros três aviões. respondeu: "Então vamos embora". Mas quase imediatamente após a resposta do Meira localizei o caminhão, agora parado, e mergulhei para atacá-lo. Não havia qualquer oposição antiaérea, o que me permitiu caprichar no ataque. Uma única rajada das oito metralhadoras e uma tremenda explosão brotou do caminhão. O Meira e os outros dois, que até aquele momento não haviam visto o alvo. gritaram pelo rádio: "Boa, Paulo Costa!”. Com toda certeza, o caminhão devia estar carregado de explosivos. Ganhei altura, juntei-me à esquadrilha para continuar na procura de outros objetivos de oportunidade, Eu me sentia um "herói", embora aquele caminhão nada representasse no cômputo geral da guerra, E acho que fiquei tão vaidoso que alguns quilômetros depois recebi o troco.

Voávamos baixo e em formação "box" (dois na frente e dois atrás), para melhor pesquisar o terreno e, de repente, ouvi o típico e desagradável ruído (pingos de chuva em teto de zinco) do matraquear de armas antiaéreas leves. Não senti qualquer impacto, mas o P-47 levantou súbita e acentuadamente o nariz e manifestou uma tremenda tendência para a esquerda. A empáfia do falso herói virou apreensão, nó na garganta, gosto de cabo de guarda-chuva na boca e uma terrível luta para controlar os 2 mil cavalos de potência do valente P-47. De regresso a Pisa verificamos que uma bala explosiva havia cortado os estabilizadores de direção e profundidade, e a pilotagem passou a ser no braço. Era como perder o sistema hidráulico dos comandos e voar sem qualquer ajuda de estabilizadores. Mas, apesar de tudo, sobrevivi!

Passados uns três dias, estava em outra missão, agora com o Goulart e mais alguns que não lembro. Ele foi atingido seriamente e não podia operar os ailerons. Foi mandado de volta a Pisa e me escalaram para comboiá-lo. Ao sobrevoarmos aquela mesma região de Suzzara, onde eu quase ficara lá três dias atrás, os alemães começaram a atirar furiosamente no pobre Goulart, que mal podia se desviar em pequenas evasivas. Foi então que a raiva me subiu à cabeça, pelo que faziam ao Goularl e pelo que me haviam feito há dias, aqueles (possivelmente os mesmos) nazifascistas. Eu não pensei duas vezes. "Goulart", disse eu, "aguenta aí que vou lá embaixo acabar com aquela malta", e dito isto, puxei um retournement em direção ao solo. Eles continuavam atirando muito porque eu via nitidamente, durante o vertiginoso mergulho em direção ao solo, dezenas de bocas lançando chamas. Mas, curiosamente, não atiravam contra mim. A mais ou menos 600 metros deles comecei a disparar ininterruptamente e só parei quando recuperei para não me chocar com o solo. É evidente que não sei se lodos morreram ou se abandonaram as baterias, mas o fato é que não mais atiraram no Goulart que, junto comigo, chegou a salvo em Pisa.

Hoje. 46 anos depois, tenho a certeza de que os artilheiros estavam tão empolgados em abater o avião do Goulart, que pouco se defendia, que não me viram mergulhar sobre eles. Daí não terem atirado contra meu avião. Se o fizessem, provavelmente eu seria mais um morto ou prisioneiro de guerra, já que eles dispunham de cerca de (avaliação nossa), no mínimo, oito baterias de quatro canhões cada, ou seja, 32 armas contra nossas apenas oito metralhadoras.

Goulart, companheiro de escola desde 1942, de Grupo de Caça e bom amigo até hoje, está vivo graças a Deus. Quase sempre nos encontramos nas reuniões das segundas-feiras na casa do Brigadeiro Nero, ou no cooper do Leblon, onde nós ambos moramos, ou nas reuniões da Caça. Espero que, ao ler este relato, ele também conte o que viu e sentiu naquela missão diferente.

Carta do Cel. Renato Goulart sobre esta missão, publicada no Nº 177 da mesma revista.

Lendo o artigo do Brig. Paulo Costa publicado na RA 176, desejo trazer meu testemunho como participante e pivô da referida missão. O relato que se segue é cópia de uma carta por mim escrita, assinada e endereçada ao autor daquele artigo. Estávamos voando abertos, na busca de alvos para atacar, já à baixa altura, quando vislumbrei duas baterias de canhões antiaéreos com seus artilheiros de costas para nós. Na intenção de apanhá-los de surpresa, mergulhei e vi que o Paulo Costa se mantinha à minha direita, aproximadamente a 100 metros. Quando cheguei à distância de tiro das minhas metralhadoras .50, vi os canhões sendo voltados contra nós. Desistir não dava mais tempo e fui firme atirando com rajadas longas. Tenho certeza de que consegui atingir uma bateria de canhões, mas não foi o suficiente para neutralizá-la totalmente. Quando iniciei a recuperação do mergulho, fui atingido no aileron da asa esquerda. O avião virou como se eu tivesse comandado um tounneau rápido. Desvirei-o com dificuldade, não só pelo susto como pelo fato do comando da asa estar avariado. Usei a força total do motor a fim de fugir daquela área perigosa e, como o Paulo descreveu, o inimigo não me deu trégua.

Foi então que o Paulo Costa voltou e atacou a segunda bateria que ainda estava incólume. O regresso acabou sendo feliz e hoje, como fiz naquela ocasião, só tenho agradecimentos à valentia e ao apoio do meu ala, que mesmo com muito risco voltou para atacar os canhões ainda ativos e que insistiam na tentativa de abater meu avião em dificuldade.

Renato Goulart Pereira
Jambock C6