Texto: Brigadeiro Paulo Costa

Os covardes e os heróis são homens anormais, pois uns tem medo demais e os outros, nenhum. Todo o individuo normal, quando face ao perigo evidente, sofre os efeitos do medo. Também é normal que o domine. Os que não o conseguem fazer são aqueles a quem chamamos covardes.

Na guerra, não fomos nem heróis nem covardes. Tivemos medo, mas fomos capazes de combatê-lo e assim conseguimos chegar ao último dia de ação, 2 de maio de 1945, como um combatente qualquer. É evidente que os pilotos em combate sofrem maiores ou menores tensões, conforme o saldo maior ou menor da soma de suas características pessoais e fator sorte. Decididamente há pessoas sem sorte e um piloto de guerra sem sorte, ou se acovarda após algumas missões mal sucedidas ou morre logo. Foi o caso de nosso colega de turma e saudoso amigo John Richardson Cordeiro e Silva, que foi morto em sua primeira missão de combate. Piloto valente, não podia aceitar que a guerra também fosse um jogo em que sai vencedor o que perde menos. Assim, atacou um objetivo na cidade de Bolonha em que se sabia ser quase impossível retornar sem graves avarias, dada a excepcionalmente forte concentração de artilharia antiaérea de todos os calibres. Seriamente atingido, não pensou logo em si e sim que devia continuar um piloto combatente, o que não aconteceria se saltasse sobre a cidade. Voou o máximo que pôde com seu avião praticamente destroçado, até atingir nossas linhas. Já era, porém, tarde demais e o salto em paraquedas que lhe teria salvo a vida se executado imediatamente apos ser atingido, mas que o eliminaria como combatente já que tornar-se-ia, irremediavelmente, um prisioneiro de guerra, foi-lhe fatal pela quase nenhuma altura que o separava do solo. Morreu por ser bravo e pela sua tremenda falta de sorte em ser escalado para uma missão daquelas e procurar executá-la como se fora sobre um alvo sem oposição.

Para que não julguem erroneamente alguns dos que nos leem, lembro que a guerra, mesmo as de desagravo nacional, são condicionadas ao jogo de perdas e ganhos. E foi assim que o Japão rendeu-se aos Estados Unidos com seu Exercito e Força Aérea praticamente intactos, com apenas as destruições de Hiroshima e Nagasaki. Pela mesma razão havia áreas no TO italiano que não se podia atacar (por ordem do comando do TO) porque os possíveis danos infligidos ao inimigo eram ultrapassados de muito pelas perdas sofridas. Lembro que nossos companheiros Joel Miranda e seu ala Danilo Moura foram derrubados simultaneamente atacando uma simples "locomotiva" em uma dessas áreas "proibidas".

Lembramos de vários companheiros nossos que sofriam danos em missões nas quais ninguém mais era atingido e de outros que sempre saíam incólumes quando quase todos eram devidamente "esburacados". Isto é difícil de explicar, mas aconteceu e acontecerá enquanto vivermos. Os que duvidarem vivam a vida íntima dos combatentes de qualquer guerra ou guerrilha (II GG, Coréia, Argélia, Vietnam etc.) e não mais duvidarão.

Nosso batismo de fogo tivemo-lo na primeira missão. Levados por um líder valente, o então Tenente Josino Maia de Assis, atacamos uma estação de estrada de ferro fortemente defendida. Os "Hunos" atiravam tanto durante nosso mergulho que o solo, para onde nos aproximávamos vertiginosamente, parecia um terreiro em noite de São João, tantas eram as bocas expelindo chamas. Apesar disso, sentimos mais apreensão do que medo e ainda nos sobrou energia para falar ao líder sobre a violência do fogo antiaéreo. Cremos que por não se julgar superior aos "fados", o comandante suspendeu o segundo ataque e conseguimos regressar à base sãos e salvos. Estranha sensação na barraca, não nos sentimos apavorados com a lembrança da terrível quantidade de balas traçantes que víamos subir em nossa direção durante o mergulho para o ataque mas, apenas, contentes de termos sido ajudados pela sorte e sair sem sermos atingidos.

Em nossa segunda missão, não fomos abatidos pelo azar do inimigo ou por nossa dose de sorte. Sobrevoávamos o passo de Brenner tentando localizar o guia, apos um bombardeio em mergulho à ponte de Ora, e descuidamos das manobras evasivas. Os Hunos lá embaixo devem ter achado graça vendo um "pato" sobrevoar suas posições em linha reta e altura constante. Apesar desse ato de estupidez em combate, erraram a primeira salva dos quatro tiros de canhão 88mm. Despertado pelo barulho, pelo cheiro da pólvora e pelos quatro cogumelos negros, recuperamo-nos do ataque de burrice e não demos mais chance aos alemães, embora esses, agora enraivecidos por perderem o "pato", atirassem furiosamente. É confortador lembrar que as manobras evasivas davam excepcional resultado apesar da precisão dos 88 que explodiam aos 4, no exato lugar que era ocupado frações de segundos antes. Nessa missão tivemos também mais apreensão que medo e em momento algum estivemos ameaçados de entrar em pânico. Lembro-me bem de que a violência das manobras que executávamos em certo momento deu a impressão que o P-47 ia entrar em perda. Olhei o velocímetro e constatei que era absolutamente verdadeira a impressão percebida o que bem evidencia, principalmente hoje transcorridos quase 30 anos, que estávamos com o sentimento de "pilotagem e raciocínio absolutamente normais".

Na base constatamos que fôramos atingidos por um dos estilhaços de granada, que apenas atravessara nosso estabilizador vertical. Na terceira missão éramos a própria tensão mas, pelo fator sorte ou acaso ou o que queiram chamar, nada aconteceu ao meu Thunderbolt. Lembro-me bem de que a cada passo estávamos como o dito, com um olho no padre e outra na missa "olhando para todos os lados tentando adivinhar de onde viria a saraivada de balas". E assim fomos, sempre ajudados pela sorte, ate a trigésima segunda missão.

Eis, porém, que um dia do mês de março saímos para uma missão chamada pelos americanos de "first lights", para nós a “Patrulha da Madrugada”. Nosso objetivo era uma fábrica de torpedos numa pequena cidade chamada Sermione que fica numa península na parte Sul do lago de Garda. Fazia um tempo lindo, um céu quase sem nuvens e nenhuma turbulência. Caprichamos no mergulho e julgamos ter acertado em cheio. Cabrando rumo às alturas sentíamo-nos como se fôssemos heróis, embora nosso ataque fosse pouco mais que uma gota d'agua no oceano. No regresso, o Comandante da Esquadrilha voava baixo à procura de objetivos de oportunidade. Como era ainda muito cedo e o inverno que findava cobrisse os campos de um nevoeiro tênue, passou o líder inadvertidamente sobre o campo de Vila Franca, um dos mais bem defendidos pelos alemães. Voámos em "cobrinha", na posição de número quatro. Os primeiros dois passaram quase sem reação; já o terceiro recebeu uma acolhida não muito boa. Nós, por sermos os últimos, fomos recebidos com todas as "honras". Parecia um voo dentro de cúmulos-nimbos, tal a quantidade de explosões, clarões e fumaça. Nunca antes, nem jamais depois, fomos tão violentos numa pilotagem. Fazíamos zig-zags, cobradas e picadas, derrapagens e glissadas tão violentos que, até hoje, não compreendemos como não entramos em perda. Apesar da ferocidade do ataque ou talvez por isso mesmo, o sentimento que tivemos não foi de medo e sim de frustração — "Vamos morrer sem dar um tiro neles", pensamos — mas em nenhum momento sentimos pânico. Creio que se a hora tivesse chegado, teríamos morrido, pelo menos conformados.

No "papo" na barraca, no regresso da missão, comentava o guia da esquadrilha "Puxa, como atiravam: eram tantas as explosões que eu não via seu avião". No entanto, só uma bala nos atingiu, pondo fora de ação um dos magnetos, o que não atrapalhou em nada nosso valente P-47, que nos transportou incólumes ao nosso acampamento em Pisa.

Hoje, passados vinte e oito anos, estamos absolutamente certos que só a sorte e a vontade Divina impediram que fossemos derrubados naquela trigésima segunda missão.