Suffolk, 8 de agosto de 1944

Queridos Pais,

Estou há mais de meia hora com o simples título 'Queridos Pais', pensando nos senhores, no que os senhores são, o que representam para mim e não consigo formular sequer uma linha. Talvez porque não tenha muito o que contar porém, mais ainda, porque as coisas em que penso não são simples de serem transportadas para o papel; são coisas que sentimos, são imateriais. No papel não tem a expressão e a força de que em nós são possuídas.

Na parede do meu quarto preguei um retrato de cada um dos senhores, cercados de retratos de todos da família. Ao centro, coloquei aquele que os senhores tiraram em Petrópolis, os dois juntos; acho que seja um dos meus melhores retratos juntos. Eu penso agora como os retratos conseguem dar vida às minhas recordações, como tornaram presentes todas essas mensagens.

Não sei se já disse, mas meus colegas de quarto são o Meira, o Coelho e o Rui. Não podiam ser outros. Dois os senhores já conhecem bem, o Rui terão oportunidade de conhecer mais tarde, é o cômico do grupo, tem sempre atitudes e cenas gozadíssimas. É ele quem nos traz o bom humor, o que vem sempre oportunamente; imita a todos com muito espírito e senso de ridículo. Sabe imitar tudo, inclusive bichos (animais). Na qualidade de humano que é, torna a cena da imitação num verdadeiro show. Cada um de nós tem a parede cheia de retratos com o bloquinho do peito predominando. É o quarto recordista no recebimento de correspondência, sendo o Coelho o campeão.

Essa "panelinha" assim reunida é que tem feito com que muita coisa, muita circunstância se torne mais fácil de encarar; me refiro aos fatores da nossa atual vida e situação, que compensamos com a satisfação de sermos o que somos atualmente. Nós sentimos no íntimo que tudo isso por que passamos e fazemos atualmente, terá um significado sumamente importante em nossa vida futura; não será somente o fato de termos lutado pelo Brasil na 2a Grande Guerra, será o marco de nossas vidas em todos os sentidos. Para mim, representa o ponto central de tudo por que pelejei. Será o ponto de apoio de todos os maus passos na vida profissional e o elo forte que sempre unirá as duas fases de minha vida, culminando uma e fixando os alicerces para a outra. Dentro de mais vinte dias farei outro telefonema que será o último da série. Vejamos se desta vez eu saberei conversar naturalmente passando por cima do: "como vai" e outras típicas de todas as conversas dessa natureza. A todos um grande abraço. Aos senhores, toda a admiração e respeito do seu filho.

Do filho,

John

Texto: Maj.Brig. Rui Barbosa Moreira Lima, no livro "Senta a Púa". Transcrito sob autorização.