Itália, 10 de fevereiro de 1945
Minha Senhora,
Já deve ser de vosso conhecimento as ocorrências ultimamente havidas com vosso esposo, o Ten. Av. Assis, pois foi enviada uma comunicação telegráfica ao Ministério da Aeronáutica, a respeito, e, de acordo com a pragmática adotada em casos com este, a família é imediatamente cientificada de tudo.
Hoje, mais como amigo e sincero admirador de vosso marido que como seu comandante, movido pelo desejo de levar ao vosso coração de esposa aflita, um pouco de tranquilidade, é que vos escrevo.
Oxalá, minhas palavras sejam suficientemente eloquentes e bastante convincentes, para vos dar amparo e conforto moral de que careceis em tal emergência. E como acredito ser o melhor recurso para atingir o fim por mim almejado, vos relatar detalhada e francamente o ocorrido, sigo este caminho, esperançado de ser bem sucedido no meu propósito.
Regressava o Ten. Av. Assis, no comando de uma formação que fora encarregada de determinada missão e em voo baixo, procurava objetivos de ocasião afim de metralhá-los, de acordo com as ordens em vigor.
Em certo ponto do trajeto, foi surpreendido por forte oposição das posições de metralhadoras antiaéreas dos alemães, tendo sido seu avião atingido em um ponto vital. Percebendo imediatamente o que acontecia comunicou-se com seus comandados, dando-lhes as necessárias instruções e procurando ganhar altura o mais possível, dirigiu-se à retaguarda de nossas linhas afim de se por a salvo.
Subindo sempre voou ele até o momento em que seu avião não mais resistindo começou a incendiar, ameaçando também parar o motor. Impossibilitado desse modo de insistir em sua tentativa, teve que abandonar o aparelho, recorrendo ao paraquedas, que se abriu normalmente, após o salto.
Estas informações que acabo de vos prestar são absolutamente seguras visto como constam das declarações do Ten. Av. Meira de Vasconcelos. Este oficial escoltou o Ten. Av. Assis afim de protegê-lo contra um possível ataque da aviação inimiga. Tendo-o acompanhado em vôo de Grupo, até o momento em que saltou, o abandonou tão somente após se assegurar de que estava fora de perigo, quando se afastou afim de não localizar para os alemães, o ponto em que desceu o paraquedas.
As esperanças de que o Ten. Av. Assis venha a cair em mãos dos "partisans" italianos, nossos aliados que combatem à retaguarda das linhas inimigas são grandes. Caso isso venha a acontecer, não só lhe será evitado o dissabor de ser aprisionado como haverão grandes possibilidades de nos ser restituído, antes do fim da guerra.
Tudo quanto acabo de vos relatar é absolutamente reservado e deveis guardar a mais absoluta reserva, até que tenhamos notícias seguras de que realmente está em poder dos inimigos. Qualquer indiscrição de vossa parte poderá prejudicar uma possível tentativa de fuga. Por tudo quanto acabo de vos relatar, senhora, podeis concluir que somente a fatalidade impediu vosso esposo retornasse à nossa Base, pois o ponto em que ele desceu de paraquedas, é bem próximo da frente onde combatem as forças de terra.
Completando minhas informações devo acrescentar que nossos inimigos respeitam religiosamente as leis de guerra sobre prisioneiros, firmadas em tempo de paz, entre as nações. Assim pois, salvo o desconforto moral e material a que estão sujeitos todos os que são aprisionados, nada mais temos a temer quanto a sua segurança.
Em contingências como estas, nos preocupam mais as famílias de nossos combatentes que eles, propriamente, considerando que estes, tranquilos sobre as condições de bem estar e segurança dos entes que amam, em paz com a própria consciência e ufanos por terem cumprido com o dever, sabem depender seu regresso, exclusivamente de tempo; aquelas, entretanto, têm como companheira inseparável, alongando-lhes as horas de modo terrível, a incerteza e consequentemente, a inquietação.
Eis aí a explicação de nossa atitude psicológica, que se mostra paradoxal, à primeira vista.
Devo recomendar-vos, outrossim, não dar crédito, de modo algum, a qualquer notícia que não vos seja dada diretamente pelo Ministério da Aeronáutica, e pelo Gabinete de S. Exa. Não esqueçais que o boato é o maior inimigo não só de vossa tranquilidade como de todos aqueles que têm parentes lutando nas Forças Expedicionárias Brasileiras.
Gravai pois em vosso subconsciente, de maneira indelével, que vosso marido está vivo, forte, moralmente satisfeito, sendo o único sentimento triste que o afeta, as saudades que sua querida esposa e de seu filho adorado e também a louca ansiedade de retornar ao carinho e ao convívio daqueles a quem ama.
Qualquer informação que me seja dada, vos transmitirei, desde que emanada de fonte segura. Quanto aos objetos que lhe pertencem, já foram inventariados e vos serão remetidos na primeira oportunidade, dependendo tudo de transporte, que é um pouco difícil entre o ponto em que nos encontramos e o Brasil.
Reafirmando meu propósito de trazer-vos inteiramente ao corrente de tudo quanto diga respeito ao vosso esposo, ponho-me inteiramente a vossa disposição, e não esqueçais que propugnar pelo vosso conforto moral é um dever que me cabe, não só como amigo de vosso marido, que sempre se mostrou um dos mais nobres e eficientes de meus oficiais, conquistando assim minha estima e consideração, como na qualidade de seu comandante.
Atenciosamente ao vosso dispor.
Nero Moura
Ten.Cel.Av. Comandante
Fonte: Associação Brasileira de Pilotos de Caça. Reproduzido sob autorização