Itália, 4 de fevereiro de 1945
Querida mãe.
O Danilo hoje não teve muita sorte. Quando estava atacando um caminhão na estrada teve o seu avião avariado pelas metralhadoras dos alemães e foi obrigado a saltar de paraquedas em território inimigo.
Ele estava voando junto com o Cap. Joel que também saltou em paraquedas. De modo que os dois devem estar juntos e tratando de escaparem dos boches.
Às vezes os pilotos que saltam de paraquedas do lado de lá conseguem evitar os alemães e chegam aqui após dois ou três meses de viagem.
Mas o lugar que eles caíram é cheio de alemães e provavelmente estão prisioneiros.
Todos os companheiros que estavam juntos com eles viram-nos pularem bem e os paraquedas abrirem. De modo que não há dúvida alguma de que estão vivos.
Às vezes a rádio alemã noticia o aprisionamento de pilotos e outros não. De modo que aguardo qualquer notícia vinda de lá como a que houve há poucos dias de dois nossos.
Se o rádio alemão nada disser há duas hipóteses: ou eles não querem dar a notícia para nos deixar na dúvida, como fazem quase sempre com os americanos, ou então eles não foram aprisionados e estão sendo auxiliados por italianos antifascistas e estão escondidos aguardando uma oportunidade de regressarem com segurança.
Aliás este é o mais comum dos casos. A maioria dos pilotos que saltam de paraquedas consegue vir para o lado de cá.
Se eles foram feitos prisioneiros, somente quando a guerra acabar é que os teremos de volta. Aliás isto não levará muito tempo. Os gringos já andam muito ruins e não vão aguentar mais de dois meses.
Por tudo isto que acabo de dizer acho que não devem se afobar muito e não lamentar a sorte dele. Está com vida, não está ferido e só vai passar um pouco mal por uns tempos. Mas até é bom porque vai conhecer a Alemanha antes de nós.
Qualquer notícia que eu souber mandarei em seguida.
Não precisam tomar providência alguma por intermédio da Cruz Vermelha Internacional porque não é necessário e demorará muito. Talvez ele mande notícias por ela. Quanto a agasalhos para o frio, ele estava bem protegido porque somos obrigados a voar com eles, justamente para esses casos. Ele leva botas de couro, calça e casaco de peles.
Talvez estranhem que o Ministério não lhe tenha avisado que ele ficou do lado de lá, mas justamente não se dá publicidade em tais casos porque se ele não foi aprisionado, há probabilidades de conseguir a fuga com a ajuda dos italianos e qualquer publicidade em tais casos poderá cair nos ouvidos dos alemães e eles tomarem providências severas. De modo que é bom não falarem no assunto com pessoas de fora da família. Guardem o máximo sigilo.
Também não precisam procurar notícia no Ministério, porque se eles tiverem algo a comunicar eles o farão imediatamente.
Talvez quando esta aí chegar já tenham ouvido algo pelo rádio alemão ou então muitos boatos exagerados ou cretinos.
Só peço que esperem confirmação da minha parte ou então comunicação oficial do Ministério. Não acreditem em mais ninguém. Tudo será palpite.
Estou juntando todas as coisas dele aqui e levarei comigo ou mandarei para minha casa, se houver portador.
O Tio Mário poderá cuidar no rádio alemão se eles noticiam algo.
Tenhamos confiança em Deus e aguardemos melhores novas.
Do seu filho,
Nero
Fonte: cópia exposta na Sala Histórica do 1º Grupo de Aviação de Caça, Base Aérea de Santa Cruz